sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A guerra que não sai de nós

O homem é um animal que faz guerra, somente nos últimos três mil anos foram cerca de quinze mil conflitos segundo relatório da UNESCO. O International Crisis Group é uma organização independente que monitora conflitos em todo o mundo e informa no seu relatório deste mês que há pelo menos setenta regiões no mundo onde há conflitos correntes ou potencial para seu desenvolvimento. Não aprendemos com os desastres de ontem a dissuadir o ímpeto belicista de hoje.

Completamos neste setembro setenta anos do início da segunda guerra mundial o mais intenso destrutivo e traumático conflito que a humanidade produziu, seus efeitos e fantasmas ainda estão nos assombrando. O gigantesco volume de páginas que já foram escritas sobre o tema torna qualquer abordagem muito suscetível a redundância. Dos aspectos militares até as interpretações psicanalistas dos líderes envolvidos, passando pelas polêmicas teóricas sobre a natureza da guerra existe muito para ler sobre os anos que incendiaram o mundo. Naturalmente uma guerra dessas proporções foi travada em várias arenas, sendo uma delas a disputa entre os criptografos e criptoanalistas.

O Livro dos códigos de Simon Sigh lançado no Brasil pela Record relata com detalhes um dos episódios mais emocionantes desta disputa envolvendo os esforços dos ingleses para decifrar as mensagens alemãs que eram codificadas com uma máquina chamada enigma. A intrincada engenhoca dava aos alemães condições de alterar constantemente os códigos que produziam diferentes alfabetos cifrados permitindo que a cada dia as mensagens tivessem seus códigos alterados. Os ingleses tinham então, que codificar um alfabeto por dia, tarefa impossível de ser realizada.

Mas os ingleses contavam com a genialidade de Alan Turing, um jovem matemático que trabalhava na decifração de mensagens criptografadas, com um exemplar da máquina alemã - conseguida com os poloneses - Turing desvendou o código e contribuiu de modo fundamental para a vitória dos aliados no conflito. Seu trabalho teórico forneceu a base para a moderna teoria do computador e fizeram dele um dos pais da cibernética.

No entanto, o pálido Turing não desfrutou do prestígio que merecia, após a guerra tornou-se professor assistente em Cambridge e teve uma vida absolutamente anônima na Inglaterra. Em 1952 foi à polícia denunciar um namorado que havia roubado seu apartamento, no depoimento revela seu homosexualismo sem se dar conta das implicações legais que esta atitude produzia. Foi preso acusado de alta indecência contrária a uma lei de 1885. Os jornais noticiaram o fato e Turing foi duplamente punido: banido dos projetos de pesquisa relacionados ao computador e obrigado a passar por um traumático tratamento, ele não suportou e se suicidou em 1954.

No último dia dez o primeiro ministro inglês Gordon Brown pediu desculpas formais pelo episódio, diz o texto final da declaração: “em nome do governo britânico, e todos aqueles que vivem em liberdade graças ao trabalho de Alan, tenho muito orgulho de dizer: Desculpe-nos, você merecia algo muito melhor.”

É muito bom ver instituições reconhecendo seus erros, é muito importante que ajustem contas com seu passado, pois ao proclamarem em alto e bom som: erramos, sinalizam para o futuro e assumem publicamente o compromisso de não cometer os mesmos equívocos. A Igreja Católica tem realizado algumas movimentações neste sentido, em 1994 pediu desculpas pela condenação de Galileu Galilei. No Brasil em 2000 se desculpou com os índios e com os negros pela sua atitude diante da escravização no período colonial. Com uma história de mais de dois mil anos ainda há muito trabalho neste sentido. Como dizia um dos mais influentes cientistas sociais brasileiros Vitor Nunes Leal: “as instituições só são respeitáveis quando se humanizam, pois elas só existem em função dos homens.”

Artigo publicado no Monitor Campista.

2 comentários:

Xacal disse...

detalhe sem importância:

Alan suicidou-se com uma mrodida em uma bela maça embebida em cianureto...Daí, o símbolo da Apple, gigante dos computadores...Uma maçã mordida, com as cores do arco-íris, símbolo do movimento GLBT...

belo texto Renato...

Rosângela disse...

Que bom que JESUS é Paz! Que bom!

E, melhor ainda, que podemos escrever isso hoje, dia 20 de setembro de 2009, após nascimento de Jesus! Que bom!