
FOTO: Pedro Chiaverini (SRZD)
Difícil imaginar um campista ou mesmo um residente na cidade que não tenha ouvido algum comentário depreciativo sobre os habitantes desta planície. Há insultos de diversas modalidades que enfatizam aspectos de nossas tradições socioeconômicas e até mesmo acusações difusas e aleatórias sobre a honestidade de nossa gente. Não acredito que estas manifestações sejam apenas expressões do bom humor e da gaiatice típica do brasileiro. Um exame nada sistemático e muito menos exaustivo de algumas obras da cultura nacional nos coloca diante de incômodas referências que perpassam o século XX e nos alcançam nos dias atuais. Citemos três:
Em 1925 Manuel Bandeira já escrevia em seu poema “Não sei dançar”os seguintes versos:
“A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral...
Surge Campos representada por uma elite preconceituosa e arrogante incapaz de entender o Brasil, de pensá-lo e aceitá-lo como uma nação que é formada por seu povo. Segundo Raimundo Faoro é uma elite que vê as camadas populares como um vulcão que deve permanecer eternamente adormecido, a mesma elite que sempre quis ser francesa, inglesa ou norte-americana e que sempre rechaçou a arte e as manifestações populares, quando não reprimindo, articulando sua circunscrição aos subúrbios.
No livro FEBEAPÁ 1 – Festival de besteira que assola o país de 1966, Stanislaw Ponte Preta relata o julgamento simulado de Hitler que teria ocorrido na Faculdade de Direito de Campos no qual o líder alemão acaba absolvido. Novamente Campos é citada como exemplo de reacionarismo e irracionalismo.
Mais recentemente, o filme Bezerra de Menezes, que conta a história do médico dos pobres, exibe em uma determinada cena o discurso do doutor em favor da abolição da escravidão. Intempestivamente suas palavras são interrompidas por uma voz irascível que afirma:
- Em Campos não, em Campos não...
Mais do mesmo, desta vez a cidade é a terra que perpetuou tudo que sempre houve de mais atrasado no Brasil, a terra dos vícios, dos reacionários, do retrocesso, das práticas anti-republicanas e berço mais tranqüilo dos conservadores que teimam em frear a modernização se agarram ao passado e pretendem usar sua força para preservar privilégios.
Não se pretende aqui avaliar as acusações ou mesmo pensar em eventuais defesas. É certo que uma cidade é mais que sua “elite” e que podemos buscar no passado e no presente exemplos de personagens e episódios que se contrapõem a essas imagens estereotipadas que apresentamos. Preocupa-nos mais o impacto sobre a construção das identidades coletivas, pensemos como estas visões negativas da cidade podem ter afetado e estar afetando a nossa autoimagem, lembremos que os recentes escândalos políticos só serviram para reforçar aspectos negativos que se vinculam a nossa memória coletiva. Segundo o sociólogo austríaco Michael Pollak a memória coletiva, social e individualmente construída, é um dos alicerces de nossas identidades. Ou seja, a imagem que fazemos de nós, para nós e para os outros.
Há muito que pesquisar sobre este tema, persistem perguntas sem respostas que reivindicam estudos e reflexões. Afinal, existe uma identidade campista? Como ela se apresenta para os distintos grupos sociais que integram a cidade? Quais os discursos produzidos pelo poder público e pelos intelectuais com o propósito de construir nossa identidade? Nossa proposição é correta? Existe mesmo um complexo de inferioridade provinciano que se hospeda muitas vezes no silêncio diante das provocações de outros citadinos? Precisamos enfrentar o espelho e superar o medo descrito assim pelo escritor argentino Jorge Luís Borges: “Uma de minhas insistentes súplicas a Deus e ao meu anjo da guarda era não sonhar com espelhos. Sei que os vigiava com inquietação. Algumas vezes, receei que começassem a divergir da realidade; outras, ver meu rosto neles desfigurado por adversidades estranhas. Soube que esse temor está, outra vez, prodigiosamente no mundo.”
A imprensa noticiou com a devida importância a pesquisa divulgada ontem pelo Laboratório de análises da violência (LAV – UERJ). Com a participação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, a ONG Observatório de Favelas e o Unicef, braço da ONU para a infância, o estudo analisou as estatística de homicídios entre adolescentes no Brasil. Revela que os homicídios são responsáveis por 46% dos jovens brasileiros mortos.
A pesquisa estima que entre 2006 e 2012, mantidas as condições atuais, serão assassinados 33 mil adolescentes, o que equivale a 13 por dia. Os números também mostram que a probabilidade de jovens negros serem assassinados é três vezes maior do que Brancos.
Enquanto isso em Brasília o DEM – partido democrata, entrou com ação no Supremo Tribunal Federal, com um pedido de liminar contra o sistema de cotas raciais para negros na Universidade de Brasília. O partido quer que seja declarada a inconstitucionalidade de atos do poder público que resultaram na instituição de cotas raciais na universidade. Os democratas reivindicam a suspensão de todos os processos na Justiça (federal e estadual) envolvendo o tema.
Parece que é um sinal do esforço da direita brasileira no sentido de avançar na organização do seu discurso e no estabelecimento de posições concretas que marquem uma clara linha divisória com a esquerda. Como não consideram a igualdade um valor da democracia, deveriam também se colocar contra o bolsa família, sabemos que o custo político de uma posição como essa é muito alto e não devemos esperar tamanha ousadia.