terça-feira, 28 de julho de 2009

Dividindo com os pobres

Ao passar pela manhã, na hora do almoço ou no fim da tarde pela Rua do Ouvidor, na quadra do Jardim São Benedito, é possível observar uma movimentação constante de cidadãos excluídos da riqueza que caracteriza essa cidade, sem qualquer acesso a oportunidades de vida digna e à proteção social do Estado. Não chega a ser uma aglomeração, mas eles afluem de forma regular – alguns diariamente, outros eventualmente – às portas do casarão que abrigou o antigo Colégio Santa Inês, hoje Mosteiro das Madres Redentoristas em Campos. Todos encontram ali acolhida para suas carências. Pão para sua fome, remédio para sua doença, ouvidos para suas “confissões” e desabafos, auxílio atencioso em momentos marcantes da vida de qualquer pessoa ou família, com a dignidade que costuma ser negada a parcela significativa de nossa sociedade – me emocionei com um caso de uma senhora pobre a quem as Irmãs possibilitaram a felicidade de se vestir e ornamentar com o esmero adequado às bodas de seu filho.
As irmãs redentoristas, que fizeram voto de clausura, seguem sua missão, como um “sinal profético” do Evangelho cristão, mas não ignoram as mazelas dos homens e de sua instituições. E, para além de sua vida contemplativa e monástica, estendem as mãos para os seus irmãos, compartilhando o fruto de seu trabalho com quem precisa. Prática cotidiana da solidariedade, ou da caridade como preferem alguns. Ou ainda, na singela definição da Madre Superiora, rotina de “dividir com os pobres” o pão e os recursos disponíveis.
Curioso que, na cidade onde religiosos de diversas matizes abençoam gestores que adotam a prática nada republicana de concentrar a riqueza privilegiando clientelas, e onde convênios escusos são firmados entre a municipalidade e instituições ditas “filantrópicas”, as irmãs redentoristas não recebam qualquer apoio da “boa sociedade” ou do poder público em seu visível e louvável trabalho social.
Mas é possível para qualquer um de nós apoiar essa ação social cristã. Além de encaminharem para quem realmente precisa doações de roupas, agasalhos e alimentos que podem ser enviadas ao mosteiro, as ativas, simpáticas e piedosas monjas produzem lindas lembranças e velas para cerimônias de primeira eucaristia de jovens cristãos, bordados e quitutes deliciosos – dentre eles um formidável pastelzinho de abacaxi que encantou o paladar deste articulista – tudo convertido na partilha fraterna do pão.

Artigo publicado na edição de segunda-feira (27/07) da Folha da Manhã.

7 comentários:

Anônimo disse...

Fábio, interessante e bem embasado o seu artigo. Caminho todos os dias pelo Jardim São Benedito e vejo a cena que, a princípio registra um belíssimo ato das irmãs enclausuradas. O que acontece porém, é o tal aproveitamento que o pedinte articula. Muitos estão alcoolizados, drogados, detentores de outros tantos vícios e, sobretudo acostumados a terem sempre que batem à porta do Mosteiro suas solicitações atendidas. Aí se torna mais fácil sustentar o ócio . Agir buscando a melhor solução talvez, nos abasteça com a inquietação que a cena exige.

Ana Paula Motta disse...

Parabéns pelo texto, belo e sensível. Eu já havia observado este trabalho das irmãs mas não sabia da extensão do trabalho e muito menos tive tua sensibilidade para escrever um post a respeito.

Claudio Kezen disse...

Belo texto, bela lembrança...

Gustavo Carvalho disse...

Essa situação vivenciada por Fábio lembrou-me do fantástico "Os Irmãos Karamázov", do mestre dos mestres Fiodor Dostoiévski. Nesse "romance de formação" polifônico, Alieksei (Aliocha), que até então vivia num mosteiro ortodoxo, se defronta com a morte do seu guia espiritual (Stáriets). Perseverando na sua fé, mas ciente da insuficiência da vida monástica, o herói adolescente ("original") toma consciência de que deve encarar a vida mundana para se tornar um "lutador sólido"! Enfim, "coisas" de Dostoiévski ...

FÁBIO SIQUEIRA disse...

Caro(a) anônimo(a) das 08:46,

Creia que nem este blogueiro nem as irmãs do convento da Face ignoram os vícios e os "oportunismos" dos excluídos que lá afluem...
O fato é que, para as piedosas monjas não há diferença neste fato. Para elas, perante Cristo, estas características não tornam estes "filhos de Deus" párias, nem criminosos. Nas palavras de uma delas: "Bêbados também tem fome!"

O problema que vc observa não é das irmãs, não é nosso, não é da sociedade... é do ESTADO!!!
A nós, cabe a "inquietação" e o espírito crítico. Aos gestores de bilhões dos cofres públicos cabe a ação! Emprego, desenvolvimento econômico e social! Mãos à obra Rosinha!!!

Aos demais comentaristas, grato pelas observações.

Antonio Fernando Nunes disse...

Não me lembro de ter visto a cena descrita. Endoço as palavras de Ana Paula. E que lição essas irmãs nos dão. Hoje, muitos artistas/vendedores aparecem na mídia por terem feito algo pelo próximo. Suas assessorias de imprensa cuidam disso. As irmãs o fazem desinteressadas da sociedade do espetáculo.
Claro que contribuem para a ideologia cristã. Mas se formos racionalizar tudo, sectarizar tudo que bosta de humanidade seremos!

Walnize disse...

Fábio,
Este seu olhar pelo cotidiano transformado em crônica vem mostrar o homem atento e sensível que mora em você.
Como estive ausente do computador por duas semanas,ao ler seu texto verifico que foi para mim um belo retorno à "máquina".
Walnize Carvalho