segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cotidiano

Em tempos de eleições no SEPE, o blogueiro reflete sobre as angústias e limitações do movimento sindical e os problemas na relação com a base hoje, sobre as dificuldades das direções sindicais em interagir de forma adequada com os "representados" e atender suas expectativas.
A reflexão ensejou uma crônica, forma de texto em que não costumo me aventurar. Certamente não há de se assemelhar aos textos de minha amiga Walnize Carvalho, cronista de mão cheia e de rara sensibilidade, mas o "laboratório" é dedicado a ela:

Ao estridente estrilar do despertador, avistou a pilha de provas que ainda a esperava sob a cômoda do quarto. Ao seu lado, o companheiro que havia se deitado quase tão tarde – ou tão cedo – quanto ela, mas que teria ao menos mais duas horas de sono para refazer as energias. Correu para a cozinha de forma a adiantar os afazeres antes que os filhos despertassem, lá pelas 07:00. A esta altura o desjejum já estaria na mesa, de acordo com as preferências de todos, café, pão, frios, achocolatado, leite, cereais...
Esta manhã era extraordinariamente vaga na rotina semanal, as aulas do dia ficavam restritas aos turnos da tarde e da noite. Geralmente, na maioria dos dias da semana, a mesa ficava pronta de véspera. Cumprido o ritual matinal, mesmo neste dia de “folga” ocupava-se de tarefas relativas aos seus quatro empregos, necessários para compor uma renda razoável, compatível com a de um operário técnico do setor petróleo. Estas tarefas – correções de provas, planejamentos, leituras (cada vez menos sistemáticas) – são cotidianamente concomitantes a outras ações relativas á organização do lar – ainda existem mulheres de “forno e fogão”, e de máquinas de lavar! – e a cuidados zelosos de mãe e esposa – verificar a lição, arrumar uma bolsa de viagem, organizar a despensa e as contas da família.
Há ainda espaço para atenção especial para seus alunos, especialmente os da rede pública – muitas vezes protagonistas de dramas vivos que parecem saídos de páginas de jornais populares. Mas os adolescentes de classe média da escola particular – com seus problemas típicos de personagens ricos da novela das oito – também merecem cuidados e apoio, que muitas vezes não tem de seus ricos e ocupados pais.
Foi no fim da tarde desse atribulado dia, ao voltar à mesma pilha de provas amanhecida sob a cômoda, que se lembrou de uma convocação do sindicato para uma assembleia às 17:00. Se corresse, a bordo do seu Uno Mille, chegaria a tempo. Pensou na responsabilidade de estar presente, pensou nas quatro aulas que teria de dar no retorno, ainda aquela noite, a partir das 19:15. Pensou nas outras vinte que ainda daria até a noite de sexta. Preferiu uma corrida a casa e um breve café com os filhos no fim de tarde daquela quarta-feira.


Crônica publicada na edição de hoje da Folha da Manhã.

Um comentário:

Walnize disse...

Amigo Fábio(nossa sempre saudação),
Tocou-me profundamente a bela crônica por tê-la dedicada a mim e também- e muito- pela leveza de texto.
Digo sem medo de errar:Há um novo cronista na praça...e do bons!
Da amiga(sem rasgação de seda)
Walnize Carvalho
Em tempo:envie para o meu e mail pois não sei "colar" e.maile.mail,pois não sei c