quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Para Lewis e Barack - Parte 2

No dia seguinte, vou até o banco pagar as benditas contas. Não havia outra maneira de resolver meu descontrole financeiro. Pague e não discuta. Entro na fila do caixa: esta ainda é a tecnologia mais rápida na cidade. Muita gente ainda não entendeu o sentido de um caixa eletrônico e, ironicamente, torna a espera para alcançá-lo uma verdadeira odisséia. Enquanto espero minha vez, com aquele montante de faturas na mão, a campainha do meu black-berry sinaliza recebimento de mensagem. Com esta, já eram três “parabéns por Hamilton e Obama”, só naquela manhã. Chegada minha vez, a moça do caixa, pelo visto, portadora de um gosto extremamente duvidoso para maquiagem, ergue a mão direita para receber a fatura. Talvez eu devesse mandar minhas contas pros dois pagarem e tudo ficaria resolvido. Afinal... somos “primos” ou não? Eu mesma faria questão de divulgar por aí: cortesia de Obama, gentileza de Hamilton! A atendente toma as benditas dívidas de minhas mãos e começa a digitar os valores em seu computador. Quando termina, dá uma piscada com os olhos, como se quisesse ter certeza do que via, pigarreia baixinho e me diz o valor total. Eu faço aquela cara de “oh, que novidade!” e lhe entrego todo meu rico dinheiro, por cima daquele vidro que nos dividia. Paranóia ou não, percebi que a mocinha olhava para o colega, no caixa ao lado. Foi quando reparei que, àquela altura, ela me examinava inteira com os olhos. Quando se tocou, finalmente, que eu estava notando sua admiração, me entregou o dinheiro. Não tirava os olhos de mim. Quanto tocou minha mão, chegou a trazer o corpo para frente e se levantou, vagarosamente, para me ver acima do tal vidro divisório. Certamente, não queria ver meus sapatos caros. Saí de lá pensando quais os efeitos que uma irmã de Obama e Hamilton pode causar, pagando faturas altas. Não se deve economizar para render. Deve-se economizar por ser este seu lugar. E lá se acabavam todos os parabéns e congratulações. O black-berry tocou novamente, mas fiquei constrangida em atender ali dentro. Ao voltar para casa, no fim do dia, abro a portinha mórbida da caixa de correios. Na TV (de plasma), mais um resumo das vitórias de Obama e Hamilton. Eu reclamaria que os grandes acontecimentos não faziam a menor diferença, nem para mim, nem para a atendente do banco. Mas o microondas apitou, avisando q a pizza estava pronta. Um pedaço para Obama, outro para Hamilton. Bom apetite, Obama e Hamilton!

Conclusão da crônica de Simone Pedro, cuja primeira parte foi publicada aqui no Sábado. Texto publicado na edição de hoje do tradicional Monitor Campista.

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